Educação
Escolar de Pessoa com Surdez
-Atendimento Educacional Especializado
em Construção-
Millene Ferreira Damásio Josimar de Paulo Ferreira
Aproximadamente há dois mil séculos, existe
um embate político e epistemológico entre os oralistas e gestualistas, que tem
ocupado lugar de destaque nas discussões e ações desenvolvidas em prol da
educação das pessoas com surdez, responsabilizando o sucesso ou o fracasso
escolar com base na adoção de uma ou de outra concepção com suas práticas
pedagógicas específicas. Enquanto as discussões ficam centradas na aceitação de
uma ou de outra língua, as pessoas com surdez não têm o seu potencial
individual e coletivo desenvolvido, ficam secundarizadas e descontextualizadas
das relações sociais das quais fazem parte, sendo relegas a uma condição
excludente ou a uma minoria.
Sabe-se que a nova política de
Educação no Brasil vem tecendo fios direcionais que possibilitam superar uma
visão centrada de homem, sociedade, cultura e linguagem de forma fragmentária,
certamente, não só neste momento histórico como um modismo, mas que se consolidará
numa perspectiva de inclusão de todos, com especial destaque para as pessoas
com deficiência. Acreditam na nova Política Nacional de Educação Especial, numa
perspectiva inclusiva e não coadunam com essas concepções que dicotomizam as
pessoas com ou sem deficiência, pois antes de tudo, por mais diferentes que
sejam os seres humanos, sempre se igualam na convivência, na experiência e nas
relações, enfim, nas interações, por serem humanos. Não veem a pessoa com
surdez como deficiente, pois ela não o é, mas tem perda sensorial auditiva, ou
seja, possui surdez, o que a limita biologicamente para essa função perceptiva.
Mas por outro lado, há toda uma potencialidade do corpo biológico humano e da
mente humana que canalizam e integram os outros processos perceptuais, tornando
essa pessoa capaz, como ser de consciência, pensamento e linguagem.
Refutam e rompem com o embate entre
gestualistas e oralistas, pois prejudica o desenvolvimento da pessoa com surdez
na instituição escolar, quando canalizam a atenção dos profissionais da escola
para o problema da língua em si, quando deve-se compreender que o foco do
fracasso escolar não está só nesta questão, mas também na qualidade e na
eficiência das práticas pedagógicas.
A intenção dos autores é interpretar
a pessoa com surdez, á luz do pensamento pós-moderno, como ser humano
descentrado, por acreditarem que o corpo biológico, não em sua parte com
deficiência, mas nas outras, que dão à pessoa potencialidade; além de
considerar que esse ser não é no todo surdo, mas há uma parte com surdez, que
neurobiologicamente, o limita, mas que, em contrapartida, o possibilita e
potencializa ao desenvolvimento dos processos neurossensorial-perceptivos. A
concepção da pessoa descentrada se caracteriza pela diferença, que, sob a força
das divisões e antagonismos, leva a pessoa a ser deslocada e a assumir
diferentes posições, Hall (2006). É nesse sentido de descentramento identitário
que se concebe a pessoa com surdez como
ser biopsicosocial, cognitivo, cultural, não somente na construção de sua
subjetividade, mas também na forma de aquisição e produção de conhecimentos.
O grande objetivo é pensar e construir uma
prática pedagógica que se volte para o desenvolvimento das potencialidades das
pessoas com surdez, na escola, fazendo com que esta instituição esteja imersa
no emaranhado de redes sociais, culturais e de saberes, considerando os
contornos dessas redes, contornos que permitam ver as pessoas em suas
singularidades e diferenças, cujos contextos reais precisam ser respeitados.
Afastar a ideia de unanimidade, de obviedade, de fragmentação, pois mergulhar
na realidade é saber que estamos sempre incompletos, indefinidos, por sermos complexos,
Moram (2001).
A tendência bilíngue se torna um
território que se desterritorializa a clausura da pessoa com surdez, sob a
ótica multicultural. A abordagem bilíngue para a educação linguística da pessoa
com surdez desloca o lugar especificamente linguístico e trata com outros
contornos: a LIBRAS e a Língua Portuguesa, em suas variantes de uso padrão,
ensinadas no âmbito escolar, devem ser tomadas em seus componentes
histórico-cultural, textual, interacional e pragmático, além de seus aspectos
formais, envolvendo a fonologia, morfologia, sintaxe, léxica e semântica.
Atendimento Educacional Especializado
para Pessoas com Surdez – AEE-PS
O conhecimento precisa ser compreendido como uma teia de
relações, na qual as relações se processem como instrumento de interlocução e
de diálogo. Pensar no AEE PS, na perspectiva de que tudo se liga a tudo e que o
ato de um professor transformar sua prática pedagógica, conectando teoria e
prática, a sala de aula comum e AEE, numa visão complementar, sustenta-se a
base do fazer pedagógico desse atendimento. Para realizar essa simbiose
adota-se a Pedagogia Contextual Relacional. O sentido dessa pedagogia
encontra-se em formar o ser humano, com base em contextos significativos, em
que se procura desenvolvê-lo em todos os aspectos possíveis, tais como: na
vontade, na inteligência, no conhecimento e ideias sociais, despertando-o nas
suas qualidades e estabelecendo um movimento relacional sadio entre o ser e o
meio ambiente, descartando tudo que é inútil, sem valor real para a vida,
conforme Damázio (2005).
Na condição de seres de linguagens, de relações, de movimentos e de
expressões no mundo em constantes transformações, procura-se desenvolver nos
alunos com surdez, a língua e a linguagem, o pensamento, as aptidões, os
interesses, as habilidades e os talentos, assegurando uma formação ampla,
dimensionada e conectada com os tempos atuais. A prática pedagógica do AEE OS
se organiza pó meio de contextos, está alicerçado nas representações sociais e
nos legados culturais e científicos da humanidade.